Enologia, um setor de sucesso em permanente desafio

Autores: Carlos Ribeiro, Diretor do curso de Enologia da UTAD e António Nazaré Pereira Diretor do departamento de Agronomia da UTAD

Portugal figura entre os principais países produtores e consumidores de vinho. Nos últimos 30 anos, a qualidade e notoriedade internacional dos vinhos portugueses aumentou significativamente. A referência aos vinhos portugueses por revistas e críticos do setor, e a participação meritória em diferentes certames nacionais e internacionais, tem catapultado a produção vinícola portuguesa para a ribalta.

A exportação de vinhos portugueses ultrapassa já 800 milhões de euros por ano, com crescente diversificação por regiões de produção.

Valorizar castas e microclimas

As novas gerações de enólogos, alicerçadas na maior profissionalização das empresas vitivinícolas e no empreendedorismo, agarrando as oportunidades de mercado e a potencialidade dos múltiplos terroirsnacionais, estão a dignificar os vinhos made inPortugal.

Porém, os viticultores e os enólogos têm que responder permanentemente às exigências de mercado e às preferências dos consumidores. Portugal, não tendo dimensão para concorrer em mercados massificados, deve fazer uso da sua diversidade de castas e microclimas para valorizar os seus vinhos.

Desafios e oportunidades

Atualmente, há desafios que devem ser tidos como novas oportunidades:

  • as alterações climáticas, farão repensar exposição, altitude, porta-enxertos, sistemas de condução e poda, castas, datas de vindima e controlo de temperatura (na vinha, na vinificação e no armazenamento) e processos de vinificação;
  • alerta, prevenção e controlo de pragas e doenças, existentes e emergentes;
  • generalização da aplicação de viticultura e enologia de precisão, com monitorização em tempo real, in loco ou com ferramentas digitais à distância, dos estados fenológicos, de maturação e desequilíbrios na vinha, e evolução da fermentação e dos parâmetros físicos e químicos de uvas, mostos e vinhos, aumentando a habilidade para recolha, armazenamento e interpretação de resultados, para intervenção on time;
  • mercados emergentes e diversificação de públicos-alvo, acentuando a necessidade de ensinar a degustar um vinho, distinguir diferentes tipos e origens, saber utilizar adequadamente produtos com diferentes caraterísticas – frescos, novos, frutados, envelhecidos (em ambiente redutor ou por processo oxidativo), licorosos, espumantes, DOPs, IGPs, regionais, etc. -;
  • associação dos vinhos à história e cultura da região produtora, a hábitos de consumo e gastronomia, incluindo o enoturismo;
  • clarificação dos efeitos do consumo de vinho com moderação na dieta, dando nota dos custos/benefícios e distinguindo a ingestão moderada do consumo em excesso, e ingestão de bebidas alcoólicas à base de destilados;
  • racionalização do uso de água, minimização de impactos ambientais e da pegada de carbono;
  • valorização dos sub-produtos da vinificação, da destilação e do envelhecimento.

O papel fundamental do enólogo

O enólogo é um profissional que integra conhecimentos que vão da vinha ao expositor. Cada vez mais, a interdisciplinaridade e a aplicação de ferramentas de engenharia, de gestão, de marketing, de informática, de microbiologia, de química, de produção vegetal, de robotização, de embalagem, de sociologia, e muitas outras, são fundamentais para associar o consumo à história subjacente a cada garrafa de vinho.

Hoje, mais do que nunca, há que definir mercados e segmentos de mercado, ter caraterísticas qualitativas adequadas a cada mercado, segmentar o produto pela qualidade e pelo preço, e exigir políticas agrícolas que contribuam para a preservação da diversidade e de produções de pequena escala, fomentando ainda mais a divulgação e comercialização sob a designação Portugal.

Articulação entre todos os atores

Impõe-se, ainda, maior, melhor e mais eficaz articulação entre todos os atores do setor, desde a produção às entidades reguladoras, passando pela distribuição e instituições de ensino e do sistema científico para que a enologia vença os desafios associados aos produtos vínicos e continue a contribuir para o sucesso desta histórica atividade económica de Portugal.

Carlos Ribeiro – Utad

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