Amor obrigatório
REPORTAGEM AGRI | Carlos Ribeiro | HISTÓRIAS PARA SEREM CONTADAS
Quando em 1964 foi para Lisboa sabia que um dia iria regressar à Aldeia Gavinha, para sempre. E assim aconteceu. Largou as Amoreiras para a Quinta da Cortezia com a maior naturalidade, como se fechasse tranquilamente uma porta. Segundo Maria do Rosário cinquenta anos de Lisboa é a dose certa. Para além de meio século é colocar em risco a própria identidade.
Quem nasceu em terras de vinha e de vinho pode fazer incursões pessoais e profissionais prolongadas em territórios urbanos, cosmopolitas e deixar-se contaminar pelo formigueiro citadino, mas nunca perde a vontade de um dia regressar. As origens cantam mais alto e a “designer de interiores” que nunca se dedicou à decoração, não escapou à regra.
O peso das gerações
Não fosse a sua veia artística e Maria do Rosário Catarino teria seguido, naturalmente, um percurso em conformidade com um histórico da família que conta com cinco gerações de atividades ligadas ao vinho. Mas a paixão pelo design, pela publicidade e pela produção criativa de conteúdos afastou-a dos cheiros, dos ruídos e das vozes que predominam nas adegas.
Durante anos a fio o Tejo encheu-lhe os olhos de sonhos e a cidade também era sua. Mas a Cortezia estava na alma e o vinho no sangue. Regressou para, ao lado de Miguel, seu irmão, dar o seu contributo para a progressão de um projeto que em 2014 foi relançado com as obras na adega.
Memórias de outras guerras
“Era como se estivéssemos na Guerra do Iraque. O telhado todo desmembrado. Parecia o resultado de um bombardeamento. Nem queria acreditar” relembra a nossa anfitriã. Foi aquela imagem de destroços que ficou na memória da operação de remodelação e de requalificação de um espaço que agora prima pela organização e por uma imagem exterior particularmente cuidada.
O vinho e o terroir
“As atividades relacionadas com o vinho, para quem as dinamiza e nelas se empenha, não se limitam à dimensão profissional ou comercial. Também não podem ser meros hobbies ou formas de “passar o tempo”. São ações que resultam de algo mais profundo que têm a ver com a identidade e com a história das pessoas envolvidas. Por exemplo, na nossa família, um irmão da minha mãe, o Engº José Reis, que queria dedicar-se à engenharia civil, teve que abdicar dessa sua vocação profissional para dar continuidade à atividade vinícola da família. O vinho é o elo de ligação entre os membros da família. Não é fácil separar a produção de vinho daqueles que a realizam”
No fundo Maria do Rosário recorda um dos elementos estruturais do próprio conceito de terroir que para além das variáveis geográficas, geológicas, climatéricas integra esta dimensão humana que muitas vezes constitui o fator diferenciador dos próprios vinhos.
Desenhos e apontamentos
Maria do Rosário que realizou exposições de pintura e serigrafia e foi premiada pelo Diário de Notícias por rótulos de garrafas por si produzidos nos seus tempos lisboetas dedica hoje uma parte significativa das suas jornadas nas tarefas administrativas e burocráticas da empresa. Mas não abandona, por nada do mundo, a velha paixão do desenho e do grafismo criativo.
“Muitos dos meus apontamentos de reuniões e sessões de trabalho são registados através de desenhos. Continuo a pesquisar nesse domínio, a prova mais recente está na proposta de logotipo que adiantei para a AVA – Associação de Vitivinicultores de Alenquer. Foi um trabalho que me deu prazer a realizar”
Desta ligação estrutural aos “riscos e rabiscos” poderíamos pensar que um dia resultaria uma proposta de vinho criativo, com aromas artísticos e sabores coloridos, mas não. Maria do Rosário deixa ao seu irmão, que é viticultor, enólogo e gestor, essa frente de trabalho. De vez em quando emite umas opiniões e acompanha a fase das vindimas, mas para ela a dimensão cultural do vinho está na continuidade porque é um “amor obrigatório”.