Alfaiates do terroir
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REPORTAGEM AGRI |Carlos Ribeiro | HISTÓRIAS PARA SEREM CONTADAS
As modalidades de auto-organização dos profissionais nos seus múltiplos setores da atividade económica são diversas e têm a sua história, as suas configurações e as suas dinâmicas. Seria difícil abordar o setor do vinho, no plano do associativismo relacionado com a viticultura, sem mencionar, por exemplo, as Adegas Cooperativas. No fundo, a existência de meios partilhados para otimizar e até viabilizar os negócios surge como condição essencial para a própria prática empresarial. Mas é possível ir mais além e encontrar plataformas de cooperação entre empresários que visam algo mais estratégico e mais colaborativo que ultrapassa a mera coordenação de recursos.
José João Melícias dinamizador da VitiScape acolheu-nos na Quinta da Folgarosa na Bulegueira e facultou-nos as chaves das portas do BNI – Business Network International: rede, entreajuda, reciprocidade, referências, não-concorrência. Chaves simbólicas, claro, para podermos aceder à atividade de grupos de empresários e de empresárias que colocam a cooperação e o trabalho em rede no centro da estratégia de desenvolvimento dos seus projetos empresariais.
O que leva um ator dinâmico, com ideias próprias e uma presença especializada no setor do vinho a apostar com tanto entusiasmo numa rede de cooperação que não tem uma relação direta com o universo vinícola ou vitivinícola?
Um conceito aparentemente paradoxal
Ligado ao vinho desde muito jovem por vínculos familiares com o setor, agrónomo, consultor, gestor, José João Melícias é um alfaiate do terroir.
Faz à medida, para grandes escalas. Uma espécie de quadratura do círculo que lhe dá um gozo especial a construir e desconstruir no dia-a-dia.
As intervenções que realiza em quintas e noutras áreas de produção vinícola para apoiar a reformulação ou a revitalização de projetos já existentes obedecem a um conceito que é simultaneamente realista e utópico. Reintroduz nos projetos empresariais locais a força secular da tradição vinícola local e projeta de forma criativa uma imagem irreverente da consistência, da solidez, da audácia de ser genuíno e autêntico no mundo do descartável, do volátil e do estandardizado que nos rodeia.
Autenticidade
Autenticidade é a sua palavra-chave. Valoriza em primeiro lugar o que é específico, genuíno, peculiar e vinculado a tradições positivas. Sim, porque há formas de agir e de trabalhar do passado que são respeitáveis, mas que já não são válidas tecnicamente, devendo ser afastadas. O que importa é assumir um posicionamento dinâmico sem se deixar influenciar pelas modas do mercado.
O conceito que a VitiScape implementa na sua ação de consultoria e aconselhamento baseia-se na valorização da autenticidade. Sem preconceitos e desconfianças injustificadas face ao que está instalado no terreno constitui seu objetivo pesquisar o que é identitário e que tem amarras profundas num determinado território. Às tantas procurar aquilo que é naturalmente português, isto porque as castas que se selecionaram e se aprimoraram ao longo dos séculos fornecem ao vinho uma identidade que mais nenhum tem.
Vinhos Coca Cola
José João Melícias é categórico ao afirmar “Países com grande produção de vinho como a Nova Zelândia, o Brasil, a Argentina, os Estados Unidos, o Chile e agora também a China, baseiam a sua produção numa quinzena de castas tipo Merlot, Cabernet, Pinot Noir, entre outras. Nos brancos as castas utilizadas são em número inferior. No fundo anualmente entregam sempre o mesmo ao cliente.
Nós temos mais de 250 castas portuguesas, não é necessário ir atrás daquilo que os outros fazem. Devemos valorizar o que nos torna únicos e respeitar a forma antiga de pensar o vinho, modernizando-nos permanentemente. Com um pé no passado naquilo que ele nos permite ser mais únicos e melhores e um pé no futuro abordando os mercados com tecnologia e logística adequadas.
No fundo há dois grandes mundos no vinho. Aquele que estrutura a sua atividade num produto de marketing que visa responder às necessidades genéricas do mercado e de um tipo de cliente que não corre riscos, que receia o terreno da descoberta e que pretende ter uma segurança inabalável naquilo que vai beber. Há outra abordagem, que se lhe contrapõe, aquela que todos os anos apresenta vinhos que respeitam o terroir, que admite incorporar na sua produção as diferenças e as variações que a natureza provoca através do clima e de circunstâncias locais particulares, sendo certo que esta relação com a natureza fornece um caráter mais genuíno ao vinho produzido.
Intervenções à medida
A ação de apoio a projetos, como foi o caso da Quinta da Folgorosa que produz vinhos há mais de 300 anos, tem essa finalidade de intervir nos diversos fatores que podem relançar uma dinâmica de valorização pela diferença e pela autenticidade.
Há um conceito básico e uma atuação em cada caso concreto. No fundo é toda uma operação que pode abarcar as castas existentes, replantar outras, substituir equipamentos de adega, alterar o lay-out, estandardizar o seu funcionamento para reduzir custos e obter versatilidade, trabalhar de forma a intervir o menos possível no produto na sua versão final e agir a montante para potenciar um produto genuíno do terroir. Para isso é preciso um conhecimento técnico profundo, na vinha e na adega.
Revolução no vinho com a UTAD
Diogo Pereira, enólogo, formado na UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, é o parceiro de projeto de José João Melícias. Não é por acaso que a UTAD vem à baila. Para o nosso interlocutor a instituição universitária com sede em Vila Real é a grande responsável das profundas mudanças de atitude e de atuação no universo do vinho português nas últimas décadas. Com a preparação técnica de enólogos criou condições para uma passagem do granel para o vinho engarrafado assegurando simultaneamente um enquadramento técnico do setor em complementaridade à ação estrutural de Agronomia que há mais de um século lhe fornece uma consistência científica e operacional.
Há 70-80 anos o vinho não era engarrafado em países como a Itália, Espanha, França e muito menos em Portugal. As soluções técnicas para o engarrafamento são recentes. Não havia canais de distribuição, nem paletizadores, nem semi-reboques e escasseavam as autoestradas. O mundo do vinho estava em linha com a realidade de então, a logística estava numa fase infantil. Nas tabernas de Lisboa sabia-se que o vinho era do Cartaxo, de Torres ou de Setúbal. Mas pouco mais.
Importa referir que não foi o consumidor que conduziu esta mudança. Foi a tecnologia e a ciência. E é neste contexto que surgem os elementos de qualificação do produto como a seleção de plantas e os sistemas mecanizados de engarrafamento que abriram portas a uma comercialização em grande escala de produtos mais selecionados. Não escolho o clima e o solo, mas escolho as plantas. Que castas plantar e em que sitio.
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